Após 25 anos longe da escola, mulher trans é aprovada em dois cursos na UFRRJ

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Após 25 anos longe da escola,
mulher trans é aprovada em dois cursos na UFRRJ

Sabriiny Fogaça Lopes, de 41 anos, retomou os estudos pelo EJA, teve conto publicado em livro e escolheu Educação Especial para realizar sonho
Nem sempre o caminho da educação é linear. Muitas vezes, ocorrem pausas, desvios que duram anos. Foi assim na trajetória de Sabriiny Fogaça Lopes que, às vésperas de completar 41 anos, no dia 14 de fevereiro, recebeu a notícia da aprovação na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) como um presente antecipado.

Ela interrompeu os estudos aos 15 anos e, após 25 anos longe da escola, retomou a formação pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), no Colégio Estadual Barão de Tefé, em Seropédica, município da região metropolitana do Rio de Janeiro. Após muita dedicação, conquistou duas aprovações na universidade pública.

A estudante fez a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e utilizou a nota para ingressar na UFRRJ no curso de Licenciatura em Educação Especial. Também participou do processo seletivo interno da instituição e foi aprovada em Licenciatura em Educação do Campo.

Mulher trans, Sabriiny explica que escolheu Educação Especial justamente por ter sentido na pele a sensação isolamento. “Minha história é atravessada por exclusão e falta de acolhimento. Vou fazer Educação Especial exatamente para ser essa profissional que acolhe, que enxerga potencial, que transforma a sala de aula em um espaço de respeito e inclusão. Quero que outras pessoas não passem pelo que eu passei.”

Ela reforça ainda que a conquista vai além do âmbito individual. “Eu sei o quanto o preconceito machuca. Sei como é se sentir invisível ou deslocada. Mas não podemos deixar que o preconceito dos outros determine o tamanho do nosso futuro. Meninas trans pertencem à escola, pertencem à universidade, pertencem a todos os espaços. O estudo é uma ferramenta de transformação e ninguém pode tirar isso de nós. Eu sei como é difícil permanecer, mas espero que histórias como a minha abram caminhos para que outras pessoas ocupem esse espaço com dignidade. Dessa forma, será uma vitória coletiva.”

“Por um tempo, achei que a escola não era um lugar para mim”

O percurso escolar de Sabriiny foi interrompido ainda quando cursava o ensino fundamental. “Sofri muito por ser diferente. Eu me sentia desamparada. Por um tempo, achei que a escola não era um lugar para mim. Passei a duvidar do meu futuro e da minha capacidade. Mas, mesmo sem enxergar, dentro de mim ainda existia um sonho que, anos depois, me deu força para voltar a estudar e concluir minha formação.”

Durante os 25 anos afastada da escola, Sabriiny construiu outras experiências e enfrentou desafios, mas a ausência da educação formal continuava sendo uma questão. “Foi um período longo, de silêncio e de sobrevivência. Eu segui a vida, amadureci, resisti, mas permanecia um vazio. No fundo, eu sentia que faltava algo… faltava realizar um sonho interrompido. A educação sempre esteve guardada dentro de mim como algo inacabado.”

Quando decidiu retomar os estudos, veio a insegurança. Mas também a determinação. “Tive o incentivo de amigos que acreditaram em mim quando eu mesma ainda estava aprendendo a acreditar. Meus professores foram fundamentais, pois me acolheram, me motivaram e me mostraram que eu tinha capacidade.”

Disso tudo, vieram os bons resultados e, como consequência, uma autoestima fortalecida. “Percebi que meu esforço estava dando frutos. Participei do Projeto Alunos Autores, no qual tive meu texto publicado em um livro. Esse momento foi um divisor de águas. Ali eu entendi que minha voz tinha valor. Foi quando pensei: ‘Se eu cheguei até aqui, posso ir além.’” A partir daí, Sabriiny estabeleceu sua próxima meta: entrar em uma universidade pública.

História que virou livro

A participação no Projeto Alunos Autores, vinculado ao programa Educação do Amanhã — iniciativa da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc-RJ) — foi um ponto decisivo para Sabriiny. O projeto, que faz parte do trabalho de Recomposição das Aprendizagens, incentiva a escrita entre estudantes da rede pública e culmina na publicação de um livro, editado pelo Grupo Eureka. Sabriiny teve seu conto escolhido para integrar a obra e participou da solenidade de autógrafos na cidade do Rio de Janeiro.

“Escolhi contar uma memória de infância com a minha avó. Vê-la sendo publicada foi muito emocionante, uma prova de que minha voz tem valor. O nome do conto ‘O banho’ representa amor, proteção e vínculo, algo que ficou marcado na minha vida. O processo de escrever me ajudou a resgatar minha própria história e mostrar que memórias simples podem carregar sentimentos profundos.”